Entrevista Pink Floyd Dream | Marcos Vinicius Trojan

Friday, July 20, 2018

Percorrendo o Vale do Paraíba em direção à São Paulo, pelas janelas da van era possível ver o Shopping Center Vale, em São José dos Campos, às margens da Rodovia Presidente Dutra. Naquele momento eu e Marcos Vinicius Trojan conversávamos sobre música e fotografia, e os temas não poderiam ser outros, sobretudo porque há poucas horas eu estava no palco do Sesc Taubaté com a Pink Floyd Dream, e ele foi o fotógrafo oficial. A conversa estava tão animada, que cogitei uma entrevista que foi prontamente aceita.

 

O claro e o escuro, o silêncio e o som, o sim e o não, a terra e o céu, enfim, muitas são as antíteses que formam nossas vidas, e o que não é fotografar senão congelar movimentos etéreos em imagens estáticas? A questão é que cada etapa do processo fotográfico possui inúmeras variáveis, cujo caminho e escolhas são sempre pessoais, a depender de quem fotografa.  Até o momento decisivo da captura de uma cena muitas opções foram consideradas, desde ângulos, posicionamentos, incidências de luzes, movimentos de pessoas, espontaneidades, enfim, uma infinidade de fatores que influenciam no resultado final. Quantas vezes não deparamos com uma fotografia e verificamos que a cena real não era dotada do mesmo encantamento? O contrário também pode ocorrer.  Nesse passo, não é difícil concluir que viajar com um profissional de imagens é muito importante para qualquer banda, porque a documentação do show e os momentos do entorno são fundamentais.  O modo como Trojan trabalha, sempre calmo e solícito, atento a todas as movimentações no palco - muitas vezes dando a impressão de possuir o dom da ubiquidade -, e os resultados notáveis de sua atuação, leva-me a crer que suas lentes são mágicas.  Todavia, sinceramente, sei que o foco é outro, não se trata apenas de equipamento, mas sim de quem o manuseia, e então a magia pode acontecer.   

 

Algumas cenas do show captadas por Trojan.

 

 

 

Apenas para ilustrar, cito alguns dos mais importantes registros do fotógrafo:

 

 

Mutantes

Casa das Máquinas

O Terço

Sandro Haick

Angra

Hermeto Pascoal

Som Nosso de Cada Dia

Violeta de Outono

Eumir Deodato

Apocalypse

Apokalipsis

Genesis Archives

Lee Recorda

Recordando o Vale das Maças

Quaterna Réquiem

Kiko Loureiro Trio

Rick Wakeman

Joe Satriani

Neal Morse Band

Magma

Rick Wakeman Project

Pink Floyd Dream

Jesse Robinson

Carl Palmer

Phil Collins

Steve Hackett

Premiata Forneria Mmarconi

Geoff Tat

 

 

 

A seguir, o artista nos revela, dentre tudo o mais, o início de carreira, anseios, ídolos, conexões, equipamentos e paixões musicais.

 

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  • Como você começou a fotografar, houve incentivo de alguém em especial?

 

Eu venho de uma família de artistas.  Meu avô Germano Streithorst era violinista e concertista, minha mãe Mirza Streithorst cantora lírica, minha tia Mariza Streithorst pintora, além de, é claro, meu primo e fotógrafo Rafael Streithorst, grande incentivador. Eu comecei a fotografar por influência de Rafael, que conhece muito sobre tudo relacionado ao universo das fotografias, e é um profundo estudioso de lentes e máquinas, principalmente as câmeras alemãs Leica.

 

 

 

 

Quase todos os dias Rafael me enviava materiais e explicações sobre funcionamentos de câmeras, preços e tudo o mais, inclusive sobre filmes, e de alguma forma tudo isso ficou no meu inconsciente.

 

 

  • Seu primeiro equipamento?

 

Tenho uma grande paixão pelo Rock Progressivo. No ano de 2007, fui à Europa com amigos especialmente para assistir Genesis, minha banda predileta, e no show em Lyon, na França, conseguimos ficar na grade, e como levamos naquele dia câmeras portáteis, conseguimos fazer alguns registros bem legais.

 

 

Genesis european tour 2007:

 

 

De alguma forma a música teve grande influência para o meu início de carreira na fotografia. Em algum momento houve essa ligação, esta conexão, principalmente por tudo o que eu sentia quando presente em um show, muita coisa de dentro da alma, inspirações, pensamentos, captação dos sentimentos dos músicos.  Assim veio a natural inclinação pela fotografia.

 


Trojan antes do show do Genesis em Roma, em 2007:

 

 

A amiga Wanda Lima me indicou a câmera Sony A3000, e a comprei. No dia seguinte eu tinha uma viagem programada para o Rio Grande do sul, especificamente Porto Alegre, com destino ao show de gravação do DVD da banda brasileira de rock progressivo Apocalypse, cujos músicos são meus amigos, e embora eu tivesse levado comigo a máquina, o fato é que nem me atrevi a abrir a caixa, que ainda estava embalada.

 

 

Algum tempo depois Rafael me ajudou a desvendar os segredos da Sony, isto é, os primeiros passos necessários para realmente começar a fotografar, e, voilà, meu trabalho inicial foi cobrir os shows de Rick Wakeman no Brasil, inclusive um deles com orquestra e coral.

 

 

Rick wakeman-Journey To The Centre Of The Earth-Teatro Araújo Viana-31/10/2014

 

 

 

 

  • E atualmente?

 

Lembro-me ainda de que estava pagando a minha primeira câmera quando a roubaram, e junto se foram os arquivos originais do show do Steve Hackett. Com muito sacrifício consegui comprar outra Sony, desta vez o modelo A3500, e a usei por bastante tempo fotografando muitos shows.  Atualmente uso uma Sony A6000, e duas lentes. Eventualmente utilizo lentes antigas com adaptador, e, assim, consigo texturas diferentes.

 

 

 

 

 

  • Os vintages?

 

Quero incluir ainda em meu setup uma Leica M3, a melhor câmera mecânica já produzida. Tenho uma Zeiss Ikon 1947, que era de meu avô Seguismundo Trojan, e todas as fotos da época de família foram tiradas com ela.  O interessante é que ele fotografava e revelava em casa, tudo era feito de forma artesanal. Recentemente a coloquei para funcionar, usei filmes 120 que ainda são possíveis de encontrar no mercado, e revelei tudo nos laboratórios da AGF. Também tenho uma Mini-Rollei, e uma Minolta, e algumas lentes Minolta e Nikon.

 

 

 

 

  • Analógicos ou digitais?

 

Eu comecei com máquinas digitais, mas estou estudando tudo sobre analógicas. Fotografia é arte. O universo digital tornou tudo muito rápido e mais simples. Os equipamentos analógicos exigem que o usuário saiba muitos detalhes ligados à fotografia para obter bons resultados, para conseguir tirar uma boa foto, e isso vai desde a escolha certa dos filmes, assim como o uso correto da velocidade de disparo e a adequada abertura de diafragma, assim como todo processo de revelação, que é uma arte autônoma. Gosto muito do preto e branco, luz e sombra.

 

 

Lente antiga nikon 50mm 1.8, em uma Sony A6000, por Trojan:

 

 

 

Genesis Archives-Av. Paulista FIESP, 2017--foto tirada por Trojan com uma Zeiss Tengor Box 1947: